...guardador de margens
O tempo passou. As correntes e o vento abriram novas margens.
Alargaram horizontes, esconderam lágrimas perdidas que por ali íam
ficando e, que lentamente se transformavam num verde e macio
musgo.
Caíram as folhas das árvores em cima dos frutos já secos que se
encontravam no chão. Força da natureza. Ciclo inevitável da vida
que se move em circulos de rotação e translação e que nos mantém
acordados à força, por vezes.
As margens que criei com o objectivo de dar um pouco de
sossego, de cor, de paixão e de alento, voltam agora neste
imprevísivel ano de 2011. Voltam de novo com cor e som. Voltam a
ter pedras à beira dos riachos que por ali passam, agora já
todos misturados numa água cristalina e só.
A brisa estará suavemente presente nos rostos de quem ali passa
e descansa. À tardinha o laranja no horizonte avisa-nos que o sol
vai partir. Uma luz ténue, luz-fusca, despe a Lua de preconceitos
para que nos possa iluminar sem limites, e apresenta-a quando o seu
reflexo se banha nas águas e nos nossos olhos.
É nessas margens que recordamos e acreditamos que
tudo é possivel. É nessas margens sedentas de amor que o som
nos penetra e nos ilumina a paixão.
A vida é triste, é bela, linda e feia, má conselheira boa
companheira. A vida dá-nos lágrimas e sorrisos, tira-nos
vidas e dá-nos novas vidas. A vida é muito poderosa, diabolicamente
poderosa, assustadora no seu semblante. A vida dá-nos as rosas, os
lírios, as túlipas, os pássaros, aquela folha bonita e simples
pendurada num galho esquecido. O sentir da natureza no nosso corpo,
as massagens da água e do vento que nos arrepia e nos faz abraçar
quem amamos.
Por isso é que a vida deve ser enfrentada de frente com garra.
Procurar furiosamente nas entrelinhas e encontrar lá o prazer
esquecido e, trazê-lo connosco, para bem perto de nós. A vida
dá-nos a possibilidade de oferecer uma flôr, um sorriso e um
carinho. A vida dentro de nós transporta-nos para onde
queremos.
Podem tirar-me tudo, mas como não me podem tirar o sonho, não
me conseguem tirar nada.
Façam-me o favor de serem felizes, estimados visitantes, destas
minhas margens, onde sempre vos espero, onde há sempre um lugar
para relaxar, onde não são feitas perguntas, onde é permitido
sonhar.
São estas! Sim, são estas as margens da paixão das quais sou o
guardador.
Bem haja.

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